Pesquisadores encontraram, no Acre, fósseis de primatas com aproximadamente 11 milhões de anos que levaram à identificação de duas espécies até então desconhecidas pela ciência. A descoberta ajuda a compreender a evolução e a distribuição dos ancestrais do muriqui, considerado o maior macaco das Américas.
Os fósseis foram encontrados em áreas próximas ao Alto Rio Juruá e à BR-364, associadas à Formação Solimões Superior. O material analisado é composto por quatro dentes e um fragmento do osso do tarso.
As novas espécies receberam os nomes científicos de Migmacebus juruaensis e Parabrachyteles vesperus.
Segundo os pesquisadores, o Parabrachyteles vesperus pesava aproximadamente seis quilos e tinha uma alimentação baseada principalmente em folhas e outros alimentos fibrosos, semelhante à dieta dos muriquis atuais.
Já o Migmacebus juruaensis era bem menor, com peso estimado em até um quilo, e se alimentava principalmente de frutas e alimentos mais duros, características observadas atualmente em macacos-prego, macacos-de-cheiro e paraucaus.
As estimativas sobre a alimentação foram feitas a partir de análises dos fósseis utilizando tomografia computadorizada de alta precisão e fotografia óptica.
A identificação do Parabrachyteles vesperus é considerada importante para a história evolutiva dos muriquis. Segundo os pesquisadores, o achado indica que os ancestrais desse grupo podem ter ocupado uma área geográfica muito maior no passado.
O paleontólogo francês Laurent Marivaux, da Universidade de Montpellier e primeiro autor do estudo, destacou que a descoberta de um parente próximo dos muriquis no Acre amplia a compreensão sobre a história evolutiva e a distribuição desses animais.
Os muriquis atuais estão restritos à Mata Atlântica, e, segundo os pesquisadores, ainda não havia registro fóssil conhecido do grupo.
O estudo reúne pesquisadores de diferentes instituições, entre elas o Museu de Ciências Naturais do Rio Grande do Sul, a Universidade Federal do Acre (UFAC), em Cruzeiro do Sul, além de instituições da França e da Argentina.
A professora Annie Hsiou, da USP e coautora da pesquisa, participa há cerca de 15 anos de expedições em busca de fósseis na região.
Segundo a pesquisadora, os novos achados mostram que a diversidade de primatas que habitava a Amazônia durante o Mioceno era maior do que se imaginava.
Grande parte do material utilizado no estudo foi encontrada por meio do peneiramento de sedimentos retirados de barrancos de rios. Os sedimentos mais finos são posteriormente analisados em laboratório, onde pequenos fragmentos e dentes podem ser identificados.
A preservação de fósseis na Amazônia é considerada difícil devido às condições ambientais, à vegetação densa e à presença de rios.
No Acre, muitos afloramentos fossilíferos ficam acessíveis principalmente durante a estação seca, quando o nível dos rios diminui e permite o acesso às barrancas.
Para os pesquisadores, a continuidade das expedições na região pode revelar novos fósseis e ajudar a reconstruir, com mais detalhes, a história dos primatas que habitaram a Amazônia milhões de anos atrás.






